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Doentes de ideologia

Médicos brasileiros reagem com fúria e preconceito à chegada dos profissionais estrangeiros, sobretudo dos cubanos, numa demonstração de que ignoram a situação da população

 

Por: Wilson Aquino e Michel Alecrim

 

Atrás da tela de um computador, a jornalista potiguar Micheline Borges não mostrava seu rosto, mas mirava o dos outros. “Essas médicas cubanas tem (sic) uma cara de empregada doméstica”, escreveu ela em uma rede social, auscultando o que, em sua xenófoba opinião, seria um grave problema dos 400 profissionais de saúde cubanos que desembarcam no Brasil para ocupar vagas rejeitadas por brasileiros em municípios sem glamour, mas cheios de gente que ainda morre por diarreia. Em Fortaleza (CE), outros cubanos, igualmente integrantes do programa federal Mais Médicos, foram xingados de “escravos” e “incompetentes”. As vaias da turma de jaleco branco só não foram mais lamentáveis do que a orientação dada pelo presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), João Batista Gomes Soares. Ele defendeu que a categoria não atendesse eventuais vítimas de erros médicos dos estrangeiros. Ou seja, que deixassem morrer os pacientes, se fosse o caso. Essa postura preconceituosa e corporativa dos médicos brasileiros envergonha o País e demonstra a ignorância deles em relação à situação de penúria da população.

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IGNORÂNCIA
Médico cubano é hostilizado por profissionais de saúde
no Ceará. Eles foram xingados de -escravos

Periferia Nem é necessário ir aos rincões do País para constatar a falta de profissionais. Se essas pessoas que esbravejam contra os médicos estrangeiros visitassem o Hospital Municipal Dr. Adalberto da Graça, em Paracambi, na Baixada Fluminense, a 83 quilômetros da capital do Rio de Janeiro, entenderiam o que é ter doença e não ter médico para tratá-la. A reportagem de ISTOÉ esteve lá e ouviu os cidadãos, a maioria com mais de 60 anos, que aguardavam em fila e no sereno, desde a madrugada, na tentativa de agendar uma consulta para quando um especialista fosse à pequena e pobre cidade. Fazia cerca de 15 graus na manhã de quarta-feira 28 e o aposentado José Brás, que parece ter muito mais do que os 65 anos, buscava uma receita médica para o tratamento do acidente vascular cerebral que sofreu. “Cheguei às 4h para agendar a consulta. É doloroso”, resumiu ele. “Às vezes, só tem horário para dois meses depois”, afirmou Juliana Batista, 28 anos, que disse sofrer de “crise de nervos”. Paracambi irá receber dois médicos cubanos.

Segundo pesquisa do instituto Datafolha, 54% dos brasileiros apoiam a vinda de médicos estrangeiros para o País, e esse número vem crescendo à medida que a população entende que os profissionais de fora não vão tomar o lugar dos brasileiros. Eles irão para locais onde nenhum brasileiro quis ir. Vão salvar gente que está morrendo por falta de medicina básica. Por exemplo, Japeri, também na Baixada, é um dos municípios mais pobres do Rio e Janeiro. Lá, 40% das 123 mortes hospitalares registradas no ano passado foram por doenças infecciosas e parasitárias. Os 100 mil habitantes contam com apenas 107 médicos, mas muitos não moram na cidade e, portanto, não estão disponíveis. A cidade está alegre, pois vai receber seis médicos, dois brasileiros e quatro cubanos. “Esse contingente vai reduzir em 70% o nosso déficit na atenção primária”, prevê o secretário de saúde, Sílvio Mendonça.

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CARÊNCIA
Fila no hospital municipal de Paracambi, a 83 quilômetros
do Rio: a cidade irá receber dois médicos cubanos

Doenças Perto dali, em Queimados, distante 50 quilômetros da capital fluminense, amarga-se problema idêntico: como 60% do esgoto gerado não é recolhido, as doenças causadas pela falta de saneamento básico são mortais. “A gente tem muita dificuldade para atrair médicos para trabalhar aqui”, diz a secretária de Saúde, a ginecologista Fátima Sanches. Ela solicitou quatro profissionais, mas apenas uma médica africana se interessou pelo trabalho, com remuneração mensal de R$ 10 mil, além de ajuda de custo. Quem necessita de atendimento mais específico frequentemente tem de se deslocar a outro município. A estudante Laudicéia Cristina de Araújo, 18 anos, quebrou a clavícula há mais de uma semana e teve de se medicar na vizinha Nova Iguaçu, distante 16 quilômetros. “E, mesmo assim, o médico se limitou a olhar o raio X e mandar eu manter o braço em uma tipoia”, reclamava.

Prevenção A chegada desses profissionais aos municípios pobres e à periferia de centros urbanos significa, também, o início de um trabalho de medicina preventiva, o melhor remédio para enfermidades básicas, muitas das quais poderiam ser erradicadas com simples noções de higiene e de educação alimentar. “Se investirmos na atenção primária, além de evitar óbitos, vamos reduzir a demanda nas emergências e nos ambulatórios”, avalia o secretário de Saúde de Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense, o cardiologista Camilo Junqueira. Em 2012, Caxias teve 49 óbitos por doenças infecciosas e parasitárias. Por isso, quer mais médicos. O Ministério da Saúde disponibilizou 32 vagas para o município, mas apenas 13 candidatos inscritos no Programa se habilitaram, sendo dois estrangeiros (um português e um colombiano).

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PRECÁRIO
Laudicéia de Araújo, de Queimados, quebrou a clavícula e teve de
se tratar em outra cidade, porque lá não tem ortopedista. José Brás,
de Paracambi, sofreu um AVC e pega fila para buscar remédios

Apesar de tudo, Rio, Brasília e São Paulo são os que têm melhor índice de médicos por mil habitantes – respectivamente, 3,62, 4,9 e 2,64. No interior do Nordeste e no Norte, a situação é dramática. O cardiologista Sérgio Perini, por exemplo, é o único para atender os 18 mil habitantes de Santa Maria das Barreiras, no interior do Pará, Estado em que a relação médico por mil habitantes é de 0,84. “As pessoas não têm mais a quem pedir ajuda a não ser a mim. Se tiver mais de três casos urgentes para atender imediatamente, como eu faço?”, questiona. Por isso, é incompreensível a fúria preconceituosa a que estão sendo submetidos os médicos estrangeiros, sobretudo os de Cuba. Nessa primeira etapa, foram selecionados 559 profissionais de países como Espanha, Portugal e Argentina. Desses, 282 já estão em treinamento, além dos 400 cubanos que deverão ser maioria quando os quatro mil médicos da ilha caribenha chegarem ao Brasil, como estabelece o acordo firmado entre o Brasil e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Ao contrário dos demais, porém, eles não receberão o salário integral. Entre 40% e 50% da remuneração ficará com o governo de Raúl Castro.

Atendimento O Conselho Federal de Medicina e os conselhos regionais não voltaram atrás em relação ao combate que têm feito ao programa do governo, mas tiveram de realizar uma reunião na quarta-feira 28 para falar do constrangimento geral em relação às atitudes agressivas da classe. Sem citar a manifestação de Fortaleza, uma nota divulgada após o encontro dizia repudiar “atos de xenofobia e preconceito em qualquer situação”. As entidades também procuraram deixar claro que são contra a postura tomada pelo conselho de Minas em relação a eventuais erros médicos praticados por estrangeiros. E corrigiram: “Os médicos brasileiros, sempre que procurados, devem prestar atendimento aos pacientes com complicações decorrentes de atendimentos realizados por médicos estrangeiros contratados sem a revalidação de seus diplomas”.

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João Batista Gomes Soares, do CRM-MG, defendeu que os médicos
não atendessem eventuais vítimas de erros dos estrangeiros

No juramento de Hipócrates, atualizado em 1948 pela Declaração de Genebra e adotado pelo Brasil, está dito o que deve ser a premissa de quem escolhe a medicina: exercer a arte de curar, mostrar-se sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Mas, ao que tudo indica, muitos doutores esqueceram dessa parte do juramento que fizeram. Que venham os estrangeiros.

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Matéria extraída da: Isto é

 

 

Sobre Beto Batalha | IguaíBAHIA.com.br

Érito Roberto (Beto Batalha) - Criador do Site IguaiBAHIA. Criado em Iguaí, onde viveu e estudou até os quatorze anos. Mudou-se para São Paulo em 1980, onde vive até hoje. Formado em Direito. Casado, com Maria do Socorro Rosa Freire, pai de 4 filhos, (dois do primeiro casamento, e dois do segundo casamento). Trabalha atualmente no Ministério Público do Estado de São Paulo.

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