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A Bahia são várias.

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Sinto tomado por um misto de tristeza e indignação e, ao mesmo tempo, estimulado e desafiado a penetrar num campo polêmico para abordar
 a nossa identidade cultural, pois o que vem sendo apresentado como cultura da Bahia me incomoda. Sei que há especialistas, respeitáveis conhecedores deste tema, que o conhecem com maior embasamento técnico-científico do que eu. Mas, enquanto suas manifestações não chegam ao destino ou não são atendidas, estou aqui também, como simples cidadão, fazendo a minha parte. Não tenho ligação com nenhum partido político e sinto-me totalmente à vontade para expressar a minha indignação e opinião sobre um dos mais importantes elementos de formação de um povo: a sua identidade cultural.

Anos atrás, quando uma pessoa do interior pretendia ir à Salvador, capital do Estado da Bahia, dizia: “eu vou à Bahia”.  Era um evento de muita importância, quase uma aventura, que somente alguns podiam fazê-lo. Uma viagem para um lugar distante, de muitas novidades, encantamentos e quase imaginário. Um mergulho no mundo civilizado. 

Por ser a capital do Estado, Salvador certamente, naquela época, gozava de muitos des
ses atributos, ao contrário do interior longínquo, desprotegido, rústico  e inóspito.  Esta dualidade, que perdurou por bom tempo, hoje não existe mais. As estradas, telefone e principalmente a internet colocaram o interior no contexto globalizado, interagindo com a capital do Estado e com o mundo. Não se diz mais que “vai à Bahia” quando deseja viajar para a capital do Estado. Simplesmente se diz que vai a Salvador. O mundo mudou muito, para melhor.

 

Mas, os nossos governantes bem acomodados e instalados com muita pompa na capital do Estado, ainda enxergam o interior como longínquo e inóspito. Talvez, isto explica o estado de abandono em que se acham as nossas raízes culturais, especialmente aquelas espalhadas pelos quatro cantos da Bahia, sem falar, é claro, de áreas como infraestrutura, educação e saúde.

No seu espaço geográfico de 567.295 km2 de área, o Estado da Bahia foi dividido para fins de estudo de sua economia em 15 regiões todas elas com características próprias quanto aos fatores econômicos. Isto nos permite aventar que essas regiões apresentam, também, distintas raízes culturais que merecem ser estudadas e respeitadas dentro do contexto cultural do Estado da Bahia. 

A formação étnico-cultural, com origem principalmente nos índios, negros e brancos, forjaram e moldaram a nossa base cultural tendo hoje  os  caboclos e  mestiços  como  elementos  resultantes e fundamentais  para preservação da nossa identidade, por carregarem os traços culturais da mistura de raças. 

Ao longo de muitos anos, e ainda hoje, a Bahia sofreu e sofre um descaso cultural que nos entristece e desalenta. Nossos governantes jamais respeitaram e ainda não respeitam nem dão o devido valor e atenção à ampla miscigenação da nossa população e sua distribuição no espaço geográfico da Bahia. 

Este equívoco histórico com a Bahia já causou danos à cultura negra e a toda cultura baiana ao jogar para escanteio características fundamentais dos nossos traços africanos e demais grupos étnicos que estão pulverizados por todo o território do Estado da Bahia. Nossa cultura agoniza diante deste canibalismo cultural promovido em nosso Estado pela inércia e passividade dos governos, tendo como ponta de lança a exacerbação do axé e a ignorância em relação à nossa diversidade cultural.  

Ao contemplar os grupos carnavalescos de Salvador, apoiando-os nas suas iniciativas, cujas alegorias remetem quase sempre a cultura negra, os nossos políticos deitam-se numa cômoda e confortável posição. Entendem eles que, prestigiando a cultura negra através dos grupos afros da capital do Estado, estão politica e socialmente corretos, portanto, merecedores de dividendos políticos e imunes às críticas. Consideram-se promotores de um grande feito e logo  se inflam diante das câmaras de TV para anunciarem, em rede nacional, o quanto estão prestigiando a cultura da Bahia.  

Passam anos e mais anos e “a Bahia de Mãe-Preta, de Caboclo e Pai João”, de extraordinárias riquezas e raízes históricas, vai perdendo, paulatinamente, sua identidade cultural. 

Não somos contra o Axé ou qualquer ritmo musical.  Ao contrário, estamos indignados com a desatenção para com  a preservação das formas de expressão dos  nossos antepassados,  representados através de ritmos ou qualquer outra forma. 

Como sabemos, os traços culturais de cada grupo étnico são definidos pelas suas características intrínsecas e pelo ambiente que ocupa no espaço geográfico. Assim, entre as comunidades negras da Bahia podemos encontrar diferenças sutis em seus traços dependendo onde se localizam, em  Salvador,  no Nordeste do Estado ou Chapada Diamantina,  por exemplo. 

Podemos imaginar, então, o quanto perdemos ao longo dos anos em valores culturais advindos das comunidades negras e demais grupos étnicos,  distribuídos por todo o Estado da Bahia,  por serem ignorados, anulados, destroçados e destruídos  pela indiferença, passividade e ignorância de sucessivos governos.

O artesanato, de invejável criatividade, desapareceu do nosso meio e deu lugar aos produtos industrializados maquiados de artesanatos sem artesão. Não se vê mais entre nós as rendeiras, as bordadeiras nem as nossas tecelãs de inigualáveis habilidades no manuseio do rústico e eficiente tear, muito utilizado, no passado, no aproveitamento dos capuchos de algodão para  confecção de tecidos. 

Os nossos violeiros, cantadores, repentistas e trovadores, desapareceram abafados pelo descaso, deixando sem voz a beleza do “sertão da mulher séra e do homem trabaiador,” como canta Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. 

 A literatura de cordel, muito presente entre nós, até quatro décadas atrás, partiu sem se despedir, sem falar da culinária do sertão, dosbiscoitos e quitutes das nossas prendadas e dedicadas mulheres sertanejas. 

Os tropeiros, verdadeiros e legítimos desbravadores e conquistadores do nosso território, fundaram vilas e cidades. Transportaram mercadorias, riquezas e informações. Isto não obstante, foram relegados ao esquecimento por capricho, não deixando rastros nos caminhos e nem sequer um pequeno manuscrito fazendo-lhes  referência. 

A utilização da cerâmica para fabricação de utensílios domésticos, uma especialidade das mulheres negras do Estado da Bahia, simplesmente soverteu. As cavalgadas e procissões estão sem sentido e nossas Foliasde Reis, uma das mais lindas expressões do nosso povo, estão sem meios e forças para sobreviver. 

O São João em nosso Estado foi nocauteado pelo desprezo à nossa cultura e jaz agonizante ao som das esfuziantes bandas de axés e forrós eletrônicos. Estou antevendo o dia que será necessário viajar para Pernambuco ou Paraíba para assistirmos um autêntico São João ou para dançarmos um verdadeiro “Forró Pé de Serra”.

Esta visão displicente e de menor importância para com as nossas raízes vem colhendo como resultado um desastre cultural que envergonha os baianos perante aos demais estados nordestinos,especialmente Pernambuco, onde a política do Estado tem demonstrado que  contempla,  com muita ênfase e no mesmo pé de igualdade,  todas as vertentes culturais.

Na Bahia, a TV estatal, um grande patrimônio do povo à disposição do Governo, fica muito a desejar no seu verdadeiro papel de prestigiar e difundir   a nossa cultura. 

O que se vê na TV Cultura e nas Tvs comerciais é uma verdadeira apologia aos eventos da Capital do Estado. O interior, onde a diversidade cultural é mais ampla, permanece com a mesma política do descaso e desprestígio, servindo apenas  para carrear votos da população na época das eleições.  

A tradicional política centralizadora dos governantes do Estado da Bahia, que não dá a devida atenção para com as demandas socioeconômicas e culturais do Estado, suscita de modo recorrente, de algumas regiões, apelos para desmembramento do Estado, tendo como bandeira, quase sempre, a falta de atenção do Governo para seus pleitos regionais incluídas ai as suas tradições culturais.

Bom seria se os nossos governantes tomassem como referência o Estado de Minas Gerais que administra com competência e zelo um grande patrimônio cultural  que se estende por um vasto território como a Bahia.  Assim, talvez, pudéssemos aprender firmar melhor o conceito de cultura, além de difundir, prestigiar e preservar os traços históricos dos nossos antepassados. 

Do vale do Jequitinhonha, próximo à Bahia, aos limites com São Pauloe Rio de Janeiro; da divisa com o Espírito Santo até o Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, um estado cercado por fortes e tradicionais raízes históricas, preserva  suas tradições como parte da boa cultura mineira, fortalecendo-a a cada dia. 

Em Minas, os negros marcaram forte presença no período da mineração e em toda sua história.  Como a Bahia, Minas Gerais conta, além dos negros, com índios, brancos, caboclos e mestiços na composição da sua identidade cultural de consistência ímpar. Neste Estado as características de todos os grupos étnico são respeitadas, prestigiadas  e difundidas  através de eventos,  meios de comunicação como a  TV cultura,  TVs comerciais locais, além da promoção de encartes em Tvs comerciais em nível nacional. 

Minas Gerais não é apenas Belo Horizonte: é o barroco, é samba, folia de reis, congado, viola, violeiros, tropas, tropeiros, quitutes e quituteiras, calangos e catiras,  além da cultura são franciscana,  entre outros.

Minas cultua todo o seu espaço geográfico. Prestigia e colabora comimparcialidade com todas as cidades do interior e se preocupa em manter as características culturais dos grupos étnicos espalhados por todo território mineiro. Esta forma como trata a cultura no Estado explica porque ainda hoje estão preservados os diversos traços culturais forjadores do povo mineiro.

Em Minas Gerais, por certo, há negligências, mas, se estivéssemos no seu patamar  em relação ao tratamento dispensado à cultura, certamente, a nossa indignação e de todos aqueles que comungam conosco seria menor. 

A minha Bahia e de todos os baianos não é apenas a Bahia de Euclides da Cunha, de Jorge Amado, de Dorival Caymmi, do Recôncavo, de Salvador e da Chapada Diamantina. Ela é tudo isso e muito mais. A Bahia verdadeira se estende por  900 km de costa e pelas terras ao longo do grandioso e maltratado Velho Chico e do Além São Francisco.Penetra pelas lindas planícies do Oeste cortadas por  rios caudalosos  que vão ao encontro do longínquo horizonte da Serra Geral, na divisa com o Estado do Tocantins e seu Sudoeste entrelaça-se  com o Norte de Minas, num fraternal abraço, através dos  Sertões e Gerais da Bahia, lembrados por Guimaraes Rosa.

A cultura é assunto de suma importância e a ela deve ser dada especial atenção pelos nossos governantes por representar a formação da identidade cultural do povo brasileiro. Não é sem razão que mereceu destaque na Constituição Federal de 1988 nos seus artigos 215 e 216 que fazemos questão de transcrever:

 Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes de cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; (…) 

Quando observamos o horizonte cultural da Bahia sentimos a ausênciade olhares atentos para as coisas da nossa terra.  O orgulho de serbaiano cada dia vai se esvaindo e a exaltação  às  enigmáticas afirmativas como: “baiano é preguiçoso”; baiano só trabalha pela manhã”; “ na Bahia não se trabalha”, “onde já se viu baiano trabalhar?”,  entre outros, muitas vezes compartilhadas pelos próprios baianos, tornam-se mais presentes.  Como se diz, as mentiras de tanto serem repetidas, acabam virando verdades no imaginário das pessoas.

Quem mora ou morou fora da Bahia sabe muito bem do que estou falando.

A Bahia não é isso e precisa mostrar para o Brasil o quã o significativos são seus valores perante a história de nosso país, como nossa Independência em 2 de julho de 1823, quase um ano após a Independência do Brasil que ocorreu em 7 de setembro de 1822. Fora da Bahia as pessoas acham   graça quando falamos que 2 de julho é feriado na Bahia porque é a comemoração da nossa independência. Eles dizem: “é mais um dia para não trabalhar”,  ou “ baianos são tão devagar que a independência   chegou lá com um ano de atraso.”  Transcrevo a seguir o que diz Paulo Costa Lima sobre o assunto:

Poucas pessoas fora da Bahia conhecem a força do 2 de julho. É uma falha enorme de informação histórica, pois trata-se do processo de independência do Brasil, e não da independência da Bahia, como até hoje muita gente fala. Uma coisa é dar o grito do Ipiranga, outra coisa é garantir pleno domínio sobre o território nacional. Entre as duas pontas, uma guerra. A guerra da Bahia, onde brilhou o heroísmo popular, além de lideranças como Labatut, Lima e Silva, João das Botas, Maria Quitéria, entre tantos outros.” 

Este é um exemplo emblemático que serve como ilustração do descaso com os nossos traços históricos. Não há dúvida,  isto resulta da falta de cuidado com a coisa pública e especialmente com nossos valores mais simbólicos que tanto nos orgulham. 

Como forma de contribuição  para que a nossa  identidade cultural não fique vulnerável aos interesses ou ao abandono dos mandatários políticos, sugiro aos governos da Bahia, inclusive o atual, o seguinte:

  • Reflexão,  urgente,  sobre a forma como  tem sido conduzida a cultura em nosso Estado, ao longo dos anos, envolvendo todos os seus colaboradores tendo como objetivo final  um consistente trabalho de ausculta e captação dos nossos valores culturais  por todos os municípios e seus respectivos distritos, sob a forma de um diagnóstico;
  • Com base no diagnóstico, elaborar documento para aprovação pela Assembléia Legislativa, contando entre outros com as seguintes medidas a serem vigoradas a partir de agora: a) – que a cultura da Bahia seja tratada com base em políticas de Estado definidas e aprovadas e não mais sujeitas apenas  aos ditames dos mandatários eleitos;  b)que nossa identidade cultural prevaleça e, portanto, seja protegida, divulgada, respeitada e identificada como patrimônio do Estado da Bahia e do Brasil.

Vitória da Conqusita, 17/07/ 2012

(*) José Cândido Oliveira Silva é economista, especialista em

Gestão Agroindustrial e Professor Universitário.

e-mail: jcandidoos@terra.com.br

Sobre Beto Batalha | IguaíBAHIA.com.br

Érito Roberto (Beto Batalha) - Criador do Site IguaiBAHIA. Criado em Iguaí, onde viveu e estudou até os quatorze anos. Mudou-se para São Paulo em 1980, onde vive até hoje. Formado em Direito. Casado, com Maria do Socorro Rosa Freire, pai de 4 filhos, (dois do primeiro casamento, e dois do segundo casamento). Trabalha atualmente no Ministério Público do Estado de São Paulo.

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